Posts com a tag ‘morte’

31

out

2011

A pele que habitamos

Por Tati Aoki – 3 Comentários

O título é uma homenagem ao ótimo e perturbador filme de Almodóvar, A pele que habito. Não assista o filme com pessoas que se abalam muito: há cenas de sexo, morte, ultra violência e sangue, muito sangue.

Sou meio fascinada pela morte, não no sentido mórbido, mas no sentido da nossa vida ser tão vã e que temos de agradecer, todos os dias, por estarmos vivos.

E, em uma semana presenciei, por coincidência, duas cenas de morte bem chocantes:

1)    Terça feira, 16 horas, metrô Sé:
uma mulher cai no vão do metrô e, bem…O trem passou por cima dela. Tumulto, pessoas olhando o sangue espalhado pelo vão do trem, outras desmaiam, choram, perturbam-se pela confusão e pelos consequentes atrasos. Não tive coragem de olhar o ocorrido, porém notei como o ser humano tem vontade, ainda que irresistível, de presenciar cenas tão chocantes. Quis olhar o sangue, mas voltei atrás, pelo trauma que irreversivelmente viria.
2)    Domingo/segunda, 0 horas, bairro Saúde: indo em direção ao carro, presencio um automóvel atropelando um motoqueiro. “Ele morreu! Ele morreu! E agora, minha senhora, o que você vai fazer?”, diz um anônimo a motorista, ao tocar no motoqueiro, agonizando seus últimos instantes neste planeta.

Volto para casa na madrugada de domingo, sentindo-me atormentada com o sentido da vida e com as fatalidades a que todos nós estamos expostos – neste caso, pela violência no trânsito causada (não se esqueça) por pessoas.

Tomo um banho antes de dormir. Ao sentir a água escorrer pela pele que habito, sinto que estou viva, mas que as vezes me comporto como morta, a mercê dos acontecimentos, deixando de protagonizar minha própria vida. Um exemplo? Quando perco meu tempo navegando na internet, sem fazer nada, literalmente. Apenas consumindo minha vida e permitindo que ela seja sugada pela rede.

Após escrever estas linhas, sinto-me na responsabilidade de protagonizar algo hoje. Seja o protagonista dos acontecimentos de sua vida, sempre. Porque, quando menos espera, alguém irá presenciar a sua morte.

11

nov

2010

Bicicleta e a hora da morte

Por Tati Aoki – Comente

Vou completar 10 anos de ciclismo, e considero andar de bicicleta uma das melhores coisas do mundo: a sensação do vento batendo no rosto, de recortar o trânsito enquanto todos se estressam dentro dos carros, é edificante.

Mas, ontem, andando com a magrela, também tive uma sensação estranha: a da morte. Estava andando na rua Domingos de Morais (iniciantes, nunca, jamais, peguem essa rua!), e cruzando com outra, tranquilamente. Um ônibus, que obviamente não me viu, por muito pouco não passou por cima de mim. Ele só não passou porque estava virando em uma rua estreita, sendo impossível correr.

Meu coração disparou mas, na hora, nada poderia ser feito. Eu estava nas mãos da reação do motorista.

O segundo em que você sente – “vou morrer…” – é longo e, ao mesmo tempo, muito curto. Me recuperei e continuei pedalando, meio ofegante, meio aliviada, até meu destino.

Uma hora depois, estava tirando a trava da bike para voltar pra casa, e um senhor de 80 anos me diz:

-    Deve ser bom andar de bicicleta: não polui, não pega trânsito, faz exercícios…
-    Verdade, por isso que é meu meio de transporte favorito.
-    Mas toma cuidado, tá? A gente só vive uma vez…

Isso. Entre bicicletas e aventuras, a gente só vive uma vez.