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ago

2013

Diretrizes para alimentação: conclusões do mestrado

No que tange à análise do tema central, antes de iniciá-la, é válido reforçar que a escolha das diretrizes se deu pelos seguintes critérios:

1) Frequência e destaque do assunto nos documentos estudados;

2) Verificação de referências, marcos e fontes adotadas pelos autores;

3) Relevância para a pesquisa.

Alicerçadas nos critérios acima, em seguida foram elencadas um total de 32 diretrizes, divididas em quatro temas centrais, cujas categorias se encontram a seguir:

Parte I: Alimentação: como fazer a nova abordagem? – fornece 16 Diretrizes práticas para a abordagem do tema;

Parte II: Significado dos termos e classificações das informações sobre alimentos - levanta questionamentos e sugestões sobre quais termos utilizar e em quais contextos. Total de quatro Diretrizes.

Parte III: Comida e suas conexões com o meio ambiente – apresenta uma amplitude do assunto e intersetorialidade do tema. Total de quatro diretrizes.

Parte IV: Comida – uma questão cultural e política – mostra a relação entre comida, política e cultura. Total de 7 diretrizes.

Optou-se pela adoção do termo “diretriz” porque a pesquisa acredita em condutas, e não em regras para se abordar o tema da alimentação. Regras limitam, cerceiam a autonomia do indivíduo; já a autonomia permite que lhes dê embasamento crítico para fazer as próprias escolhas, de acordo com sua realidade individual e social.

Parte I: Alimentação: como fazer a nova abordagem?

1) Não atribuir somente a culpa individual pela situação alimentar

As escolhas alimentares são determinadas não tanto pela preferência e pelos hábitos, mas muito mais pelo sistema de produção e de abastecimento de alimentos, bem como pelas condições econômicas. Há, de fato, uma influência biológica e de padrões alimentares adquiridos; porém, há igualmente uma influência atrelada a fatores externos, como condições socioeconômicas e do meio ambiente, o que traz o caráter de denúncia das condições de trabalho, saúde e econômicas das pessoas.

Ao identificar que a condição alimentar não é somente responsabilidade individual, amplia-se a possibilidade de os indivíduos agirem em prol de si mesmos e de sua comunidade, cobrando ações por parte do governo para coibir questões, que interfiram em sua saúde (ações de marketing para alimentação, propagandas, empresas que adulteram alimentos), bem como exigir alimentos saudáveis e acessíveis, subsidiados pelo governo, entre outras medidas.

2) Encontrar as brechas na grande mídia para criar informações alternativas, próprias e locais…

A ideia não é combater determinados tópicos, como o fast food, mas mostrar que existem outros caminhos, assim como garantir que alternativas existam e prosperem (POLLAN, 2007, p. 279). Um exemplo é divulgar movimentos alternativos e que pouco aparecem na grande mídia, como o ‘Freeganismo’, Projeto Educando com a Horta Escolar, entre outros.

3) ….Não ser tão radical e não negar totalmente a grande mídia

A abordagem não pode visar somente à crítica aos padrões atuais, mas também se valer de exemplos concretos para se repensar hábitos de produção e consumo.

4) Evitar evangelizar da mesma maneira que a mídia de nutrição/dieta

A importância da informação sobre alimentação saudável implica em fornecer condutas para que as pessoas possam ter autonomia para tomar escolhas, sejam elas saudáveis ou não. Todavia, é obrigação do comunicador e do Estado informar a verdadeira procedência dos alimentos e as implicações tanto individuais como sociais para um alimento altamente processado.

5) Ao propor novas práticas em alimentação, evitar o tom de denúncia

Em contraposição ao tom de denúncia, vale dar sugestões para se enxergar a alimentação sob outros pontos de vista – com base na cultura, nos fatores políticos e sociais. Como recurso, recomenda-se usar o humor − inclusive quando tratar de algo mais sério, como, por exemplo, quando falar em mudanças no sistema de produção de alimentos. Este recurso foi amplamente adotado por Pollan (2008), sobretudo quando tratou do nutricionismo.

6) Mencionar que a questão do alimento está inserida no âmbito político e econômico

O modelo econômico possui uma lógica de desenvolvimento levado às últimas consequências. Para compreender essa dinâmica, recomenda-se trazer à tona conceitos como sustentabilidade, agroindústria, indústria alimentícia. Esse tratamento intersetorial viabiliza abordar a questão da saúde como um tema intrínseco às questões do solo, das plantas, dos animais e dos seres humanos (POLLAN, 2007).

7) Evitar o nutricionismo quando for elaborar pautas

Repensar no fetichismo com o uso da ciência como o único instrumento confiável para se lidar com a natureza (POLLAN, 2008). Não é porque foi publicado um estudo científico que a informação está correta e pode ser divulgada: cada estudo exige uma apuração. É importante pensar na questão ao se deparar com algum dado e/ou estudo encontrado em, por exemplo, revistas de dietas.

8 ) Desconfiar de textos como “um estudo indicou que”…

Basta comparar os textos que se percebe a contradição: um estudo fala que o chocolate faz bem; o outro, que pode te matar a qualquer momento. Além disso, quando for escrever sobre alimentação, a moderação é o tom, pois, mesmo que o estudo seja relevante para divulgação, cada indivíduo tem uma lógica própria. Uma divulgação inadequada, como “coma chocolate e emagreça”, pode adoecer um diabético com problemas de peso.

9) Ao falar de algum alimento novo, em vez de fazer somente a divulgação, ensine-o a ler o rótulo

Pollan (2008, p. 127) preconiza: ensine o indivíduo a ler rótulos, destrinchando os ingredientes sem floreios e termos científicos, difíceis de entender. O que significa cada um dos termos? Qual a porcentagem de milho em um salgadinho? E, dos ingredientes citados, que significa emulsificante, encontrado no rótulo do frango empanado? No exemplo citado, a resposta seria: Emulsificante significa impedir que a água e as gorduras se separem. Se o indivíduo sabe ler o rótulo, consegue identificar a reação de determinado alimento em seu organismo.

10) Estimular o questionamento sobre a origem das coisas

Em vez de instigar a pessoa a pensar “O que devo comer?”, trazer à tona a pergunta “O que estou comendo? E de onde isso veio?”. Se o indivíduo ou o comunicador não conseguirem conceber, provavelmente a comida é pouco saudável. No longo prazo, tais mudanças obrigarão os produtores de alimentos a repensar suas condições de produção de alimentos em escala industrial.

11) Comida e o preço – um debate político

O preço da comida entra no debate político: o “barato sai caro”. Uma alimentação baseada em escolhas dadas apenas pelo preço pode trazer sérias consequências à saúde. Por outro lado, no Brasil, grande parte da população compromete uma alta porcentagem de sua renda com alimentos. Neste caso, é papel do Estado subsidiar uma alimentação saudável para estratos familiares de menor renda. No longo prazo, disponibilizar alimentos pouco nutritivos acarreta em DCNG, cujos custos altos serão também subsidiados pelo Estado.

Além disso, ao tratar do preço dos alimentos, apontar os demais custos relacionados à produção dos mesmos, isto é, os custos adicionais para a saúde, o meio ambiente e para o trabalhador.

12) Tamanho é documento – tamanho das porções

É importante incentivar a impopular diretriz para comer menos. A moderação alimentar assim como os tipos de alimentos ingeridos são elementos importantes à manutenção da saúde. Enquanto a comida for vista apenas como condição de consumo, isto é, mais por menos, tamanho de porções, o que vai prevalecer é o lema da quantidade em detrimento da qualidade. Além disso, a questão da quantidade é outro atributo do capitalismo: quanto mais, melhor, e tal condição pode ser posta em questão em prol da saúde individual e do meio ambiente.

Outro ponto de destaque é com relação ao autocontrole: as pessoas não param de comer quando se sentem cheias. A fome não funciona desse jeito. Isso porque pesquisadores descobriram que os seres humanos (e os animais), quando apresentados a porções grandes de comida, costumam comer 30% a mais (POLLAN, 2007). Nesse sentido, a orientação é que os produtores diminuam as porções e, por consequência, o preço dos alimentos.

13) Não às Proibições ou limitações alimentares

De acordo com Brasil (2006), a supervalorização e/ou mistificação de certos alimentos em detrimento de outros, ressaltando somente as características nutricionais ou funcionais, não é uma prática que promove a alimentação saudável.

14) Não às dietas da moda

Os padrões estéticos exigem um padrão “da moda” muitas vezes irreal para grande parte da população. Com isso, são divulgadas “dietas milagrosas” para perda de peso, de forma acentuada e rápida (BRASIL, 2006, p. 24). Essas dietas da moda, na maioria das vezes, causam prejuízos à saúde, e não atendem aos requisitos exigidos de uma alimentação saudável para a manutenção do bem-estar.

15) Para falar de alimentos: aprenda a cozinhar

Um dos principais recursos para entender os alimentos é cozinhando e compreendendo a cultura gastronômica. Na prática, essa percepção possibilita uma produção de conteúdo mais investigativa, ao elaborar uma informação sobre o alimento: sua procedência, modos de distribuição, entre outros.

16) Mostrar que é possível uma alimentação saudável no cotidiano

Uma das principais estratégias de marketing de alimentos da indústria alimentícia é criar um vínculo sígnico/simbólico da pessoa com a marca. Tal procedimento não reverte necessariamente em consumo da marca, mas em uma identificação com um determinado estilo de vida, em que o consumidor toma tais comportamentos como “forma de manifestação de seus hábitos” (TRINDADE, 2012, p. 79), reforçando sua visão de mundo.

Nesse sentido, quando for falar de alimentação saudável, é positivo usar a mesma abordagem de vínculo da indústria, mas, para outro fim, que é o de estimular uma alimentação saudável, identificada com o cotidiano, por meio de alimentos acessíveis e locais. É válido trazer essa percepção, a fim de que o indivíduo questione e mude os pequenos hábitos no cotidiano.

17) Questionar: a validade do alimento

Para detectar o grande dilema da indústria alimentícia, uma das maneiras é fazer perguntas como: “é possível um frango valer por anos?”; “Por que o leite hoje é válido por tantos meses?”. Quando se questiona a validade, bem como os ingredientes dos alimentos, é levantada a longa e obscura cadeia da indústria alimentícia.

Parte II: significado dos termos e classificações das informações sobre alimentos

18) Procure fontes midiáticas fora do Brasil – e da caixa

Fontes de informações diferenciadas do discurso do nutricionismo podem ser encontradas em setores da saúde pública e de movimentos alinhados à Promoção da Saúde. Além disso, estudar culturas alimentares de países com baixos índices de doenças relacionadas à dieta – como a mediterrânea, francesa, coreana ou japonesa – proporciona novas diretrizes que, por vezes, podem ser aplicadas à realidade nacional.

19) Significado dos termos: saudável, orgânico, diet.

A reflexão profunda sobre o que cada palavra significa (orgânico, sustentável, natural) enriquece os conteúdos sobre alimentação. A mídia e a indústria frequentemente atribuem significações a termos de acordo com seus interesses; por isso, é importante ficar atento aos termos e não os repetir somente porque alguma autoridade científica ou produto alimentício lançou tal termo.

20) Classificação de termos 1: natural ou industrializado?

Diversos estudiosos vêm sugerindo esse tipo de classificação, que separa os alimentos entre naturais e industrializados. Essa divisão parte da prerrogativa de que o início da epidemia de obesidade coincide com o período em que os alimentos altamente processados passaram a compor uma parte grande da dieta das pessoas.

21) Classificação de termos 2: integral ou processado?

Quanto ao processamento dos alimentos, o Brasil (2006) criou uma escala composta por três grupos:

Grupo 1: frutas, verduras, legumes, grãos, carne, leite e ovos frescos, entre outros. Ou seja, se há apenas um ingrediente (por exemplo, banana, ovo), é um produto do grupo 1.

Grupo 2: reúne ingredientes culinários, isto é, alimentos que sofrem um processamento mais intenso – como refinar, moer ou extrair gorduras –, mas que não são consumidos por si só. É o caso das farinhas, óleos, massas e açúcar.

Grupo 3: são os alimentos ultraprocessados, equivalente a industrializados prontos ou semiprontos para consumo. Sua preparação é basicamente composta de produtos do Grupo 2, com pouca ou nenhuma participação do Grupo 1. Entram nessa categoria biscoitos, salgadinhos, refrigerantes, e também lanches de grandes redes de pizza e hambúrguer, que são apenas montados ou aquecidos no local. O recomendado é que a alimentação se baseie principalmente em alimentos do primeiro grupo, com elementos do segundo. Os ultraprocessados devem entrar em uma proporção mínima na dieta.

Parte III: Comida e suas conexões com o meio ambiente

22) Comida e sustentabilidade

Para trazer a conexão entre comida e sustentabilidade, é conveniente dar exemplos aplicáveis, como ensinar as pessoas a reaprenderem o que significa comer levando em conta as estações do ano (POLLAN, 2007). É importante também trazer conteúdos que tratem do reaproveitamento de alimentos – sem fazer alusão de que se trata de sinônimo de pobreza ou avareza.

23) Alimentação mais verde

Alimentação natural, variada e de origem vegetal: essa é basicamente a diretriz recomendada por todos os órgãos oficiais, como FAO, OMS e o ‘Guia Alimentar para a População Brasileira’ (BRASIL, 2010). Esse tipo de alimentação contribui na proteção contra doenças, e é consenso científico em relação aos princípios de alimentação adequada, como ficou evidente nos anos de 1980 e foi consolidada nos anos de 1990 (BRASIL, 2006, p. 34). Tal reorientação de prioridades “[...] incentiva o delineamento de políticas para criar ou proteger sistemas alimentares baseados em uma grande variedade de alimentos de origem vegetal” (BRASIL, 2006, p. 34).

Há também consenso de que uma dieta rica em alimentos de origem vegetal é benéfica para a saúde, bem como permite que se desenvolvam e identifiquem formas efetivas de apoio a práticas sustentáveis de produção de alimentos.

24) Comida e vegetarianismo: o que realmente importa?

Ao tratar do vegetarianismo, em vez de limitar o discurso apenas a que tipo de alimentos comer e disponibilizar receitas, abordar também a seguinte questão: “a espécie do animal que comemos pode ser a ser menos importante do que aquilo que o próprio animal está comendo” (POLLAN, 2007, p. 288). Nesse sentido, o discurso sobre vegetarianismo pode se ater mais aos modos de produção de alimentos – seja de origem animal, seja vegetal – do que pelo alimento em si.

25) Comer de forma consciente

Informar sobre o comer consciente traz à tona a longa cadeia “cármica”, que fez o alimento chegar à mesa (POLLAN, 2007, p. 17). Vale incentivar não comer à maneira industrial – isto é, comer sem pensar no que está fazendo (POLLAN, 2007, p. 434). Alimentar-se com consciência, prestando atenção ao que se está comendo, também estimula a desconfiança em relação aos alimentos industrializados, que favorecem serem comidos sem prestar atenção. Tais alimentos normalmente são menos nutritivos e dados a comer de forma compulsiva.

Parte IV: Comida – uma questão cultural e política

26) SAN, DHAA, Soberania Alimentar: temas viáveis em todas as editorias

Por serem temas complexos, a questão da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), bem como seus componentes, como o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e a Soberania Alimentar, demandam uma abordagem mais aprofundada.

Vale acrescentar que, uma vez que a SAN implica em diversas interfaces, um dos pontos centrais que podem ser destacados é não só falar do acesso aos alimentos, mas também inserir a questão da realização do direito, dando a conotação da necessidade de intervenção política e social.

27) Aspectos da insegurança alimentar: acesso e excesso

A contemporaneidade vive dois dilemas: a pobreza, que é empecilho para acesso ao DHAA; e a obesidade, cuja questão é o tipo de acesso que se tem ao alimento. Portanto, vale destacar que tanto a fome quanto a obesidade são aspectos da insegurança alimentar e, no fim, da desigualdade social.

28) Trabalhar com a questão do sistema alimentar

O sistema alimentar traz à tona que o alimento corresponde a um conjunto profundamente influenciado pelas condições naturais como clima, solo, história, cultura, políticas e práticas econômicas e comerciais. Nesse sentido, é válido retratar como o alimento advém de um conjunto de processos que incluem agricultura, pecuária, produção, processamento, distribuição, importação e exportação, publicidade, abastecimento, comercialização, preparação e consumo de alimentos e bebidas (COSTA, 2011).

29) Compreender a cultura alimentar do seu país, região, cidade

Antes de divulgar um novo alimento “milagroso” e/ou importado, compreender se há sentido em inseri-lo na cultura do local em que o conteúdo está sendo produzido. Isso porque a alimentação e a saúde estão vinculadas também à questão do grupo, dos indivíduos e de seu ambiente; além disso, a maneira de viver do indivíduo apoia-se na cultura, nas crenças e nos valores compartilhados entre as pessoas. Dessa maneira, vale compreender não só os aspectos que envolvem a saúde dos indivíduos, mas também os hábitos e a cultura do local em que estão inseridos.

30) Pensar em padrões alimentares

Em vez do termo “hábitos alimentares”, o uso do termo padrões alimentares detecta uma visão ampliada da questão. O padrão alimentar de uma população resulta de uma cadeia de causas, que se inicia na produção e comercialização dos alimentos, passando para os parâmetros de transformação do alimento dentro das indústrias, e ao mercado publicitário e midiático, para Costa (2011).

No caso específico do Brasil, o padrão alimentar atual contribui para o aumento da obesidade e não estimula a alimentação saudável – pontos centrais que podem ser levados a debate ao informar sobre alimentação.

31) Alimentação: assunto interdisciplinar

Alimentação não concerne somente ao setor saúde, mas, sim, possui um espectro ampliado de áreas que envolvem a questão. Com isso, a alimentação deve ser vista sob a integração de outros setores e atores sociais – cientistas sociais, antropólogos, profissionais da saúde, jornalistas, entre outros.

32) Alimentação saudável é um direito social

Alimentação como direito social pressupõe a intervenção estatal, por meio de políticas públicas. Em nível coletivo, é também responsabilidade do Estado o incentivo de mudanças socioambientais, para favorecer as escolhas saudáveis em nível individual ou familiar.